Ana Rita Fernandes

🇬🇧Who are you, bookseller Ana Rita?What a difficult question! I was born in Lisbon in 1973, and have always liked to read. I think the best place in the world to read is not sitting on the toilet, but under the kitchen table. I like comic books, I have consideration for all literary genres and love illustration. I've been a bookseller for almost 20 years.

In what way did stories and books make an impression on you as a child? Do you keep an image of something or some book in particular?
Surprisingly, I have no memory of being read to. My mother says that from the moment I learned to read I became a voracious reader and never allowed anyone to read to me again.
I remember exploring/reading comic or picture books beside my grandfather and this is my most remote image of reading. My grandmother did not tell traditional stories, but personal ones. And maybe that's why I decided to study History and not Literature. 
When I learned how to read, I became fascinated by a book of fairy tales and traditional tales that belonged to my mother and which was illustrated with stamps.

How was Baobá born and where does your bond with the bookshop come from?
Baobá bookshop was born in 2016, by Carla Oliveira’s hand (Orfeu Negro’s editor), who invited me to the project.
At Christmas 2014, Orfeu Negro opened a pop-up bookstore in Campo de Ourique, very close to the current Baobá. After that successful existence of only 2 months, they couldn’t stop thinking about a bookshop. Even before finding the space, Carla contacted me. We met at a presentation of Orfeu Negro at the Post-Graduate Program in Children’s Book at the Universidade Católica when I was a student there.  We got along straight away and Carla used to visit me at the bookshop where I worked, inviting me for book releases. Later she told me that she was already courting me (laughter), anticipating this project about a house for illustrated books.

How do you make sure you make the right book get to the right hands at the right time?
Well, in two ways. Either the book comes to me and then we have to communicate it to the readers or the client comes to me and I have to make the book get to him. In other words: I can find a book in a publisher's newsletter, in a catalog, that immediately catches my attention, etc., and I try to get it. After having the book, we publish it on our social networks introducing it to the world, so to speak. Or the client comes to me with a specific request and then we try to match him to a book.

Which book goes unnoticed on the bookshop shelf but that you would like to be more widespread?
“Ké Iz Tuk?”, by Carson Ellis (Orfeu Mini). It's a fantastic book, highly amusing, very smart, but I always have to invite people to overcome the language barrier. Parents are immensely afraid because there is a very strong social and cultural weight on them (that the child does not learn the language correctly), and any such book that plays with language suffers from prejudice. The truth is that adults later confess that when they read it, it is a success, and now everyone speaks insect.

If you could, who would you hug today?
Wow. So many people! Who needs a hug?
And, by the way, I can't help thinking about Ciraolo's book, “Hug Me”, in which the cactus Felipe needs a hug and befriends a balloon.
Therefore, disaster!

🇵🇹Quem és tu, livreira Ana Rita?
Que pergunta tão difícil! Nasci em Lisboa em 1973, sempre gostei de ler. Acho
que o melhor sítio do mundo para ler não é sentado na sanita, mas debaixo da
mesa da cozinha. Gosto de banda desenhada, não desdenho qualquer género
literário e adoro ilustração. Sou livreira há quase 20 anos.

- De que forma as histórias contadas e os livros te marcaram na infância? Tens alguma imagem de algo em particular?
Eu não tenho, curiosamente, memória de me lerem. A minha mãe diz que a partir do momento em que aprendi a ler me tornei uma leitora voraz e nunca mais permiti que me lessem. Lembro-me por isso de estar a ver/ler livros de BD ou de imagens aos pés do meu avô e essa é a minha imagem mais remota de leitura. A minha avó não contava histórias tradicionais, mas narrativas pessoais. E talvez por isso eu fui para História e não para Literatura. Quando aprendi a ler, ganhei devoção por um livro de contos de fadas e tradicionais da minha mãe ilustrado com estampilhas.

- Como nasceu a Baobá livraria e a tua relação com ela?
A Baobá livraria nasceu em 2016, por iniciativa da Carla Oliveira, editora da Orfeu Negro, que me convidou para o projeto.
No Natal de 2014, a Orfeu Negro abriu uma livraria pop-up em Campo de Ourique, muito perto da atual Baobá, e, depois desse êxito de apenas 2 meses, ficou o bichinho da livraria. Ainda antes de encontrar o espaço, a Carla contactou-me. Tínhamo-nos conhecido numa apresentação da editora na Pós-Graduação em Livro Infantil na Católica de Lisboa quando eu era lá aluna. Demo-nos logo bem e a Carla ia-me visitando na livraria onde eu trabalhava e convidando para lançamentos. Depois disse-me que já me andava a “namorar” (riso), antevendo este projeto da casa dos livros ilustrados.

- Como te certificas de que fazes o livro certo chegar às mãos certas na hora certa?
Bem, há duas formas. Ou o livro vem até mim e depois temos de o comunicar aos leitores ou o cliente vem até mim e eu tenho de lhe fazer chegar o livro. Explicando: posso encontrar um livro na newsletter de uma editora, num catálogo, que imediatamente me chama a atenção, etc, e tento tê-lo. Tendo o livro, publicamos nas nossas redes sociais apresentando-o ao mundo, por assim dizer. Ou o cliente vem ter comigo com um pedido específico e aí tentamos casá-lo com um livro.

- Qual o livro que passa despercebido na prateleira da livraria, mas que gostarias que chegasse a mais crianças?
Ké Iz Tuk?, da Carson Ellis (Orfeu Mini). É um livro fantástico, super divertido, muito inteligente, mas tenho sempre de convidar as pessoas a passarem a barreira da linguagem.  Os pais têm imenso medo, porque há um peso social e cultural muito forte sobre eles (de que a criança não aprenda a língua corretamente), e qualquer livro como este que brinque com a linguagem sofre de preconceito. A verdade é que, depois, os adultos confessam que, quando o leem, é um sucesso, e agora todos falam “insectês”.

- Se pudesses, a quem darias um abraço apertado hoje?
Ui. Tanta gente! Quem precisa de um abraço?
E, já agora, não posso deixar de pensar no livro da Ciraolo, Quero Um Abraço, em que o cato Filipe precisa tanto de um abracinho e arranja um amigo balão.
Desastre, portanto!